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2012-04-22

A Es.col.a e o empreendedorismo

Todos sabemos o que é que o colectivo Es.col.a fazia naquela edifício da Fontinha, um bairro no Porto e uma das muitas zonas deprimidas deste País. Sabemos? Talvez não.

O empreendedorismo oscila quase sempre entre duas dimensões: a primeira, e mais comum, é a força de alguém, em liberdade de iniciativa, executar um projecto e assumir o seu risco, o que, com mérito próprio, lhe poderá trazer vantagens financeiras e ascensão social. Um outro tipo de empreendedorismo, é aquele que, analogamente ao primeiro, congrega esforços de pessoas em torno de um objectivo, mas que passa pela transformação que pode operar na sociedade e não pelos lucros.

Não me distanciei ainda do famigerado discurso liberal, mesmo estando a falar de um colectivo do qual fazem parte “sujos anarquistas” que “ocuparam ilegalmente um espaço” e concerteza nunca envergaram um bom fato na vida. Mas não é engano.

O presidente da câmara do Porto, Rui Rio, é um auto-denominado homem de direita. Torna-se muito difícil de compreender que não tenha nenhuma simpatia pessoal por um movimento que vem da sociedade, feito por pessoas que não tiraram nenhum benefício financeiro do que fizeram e nem sequer oneraram o Estado. É surpreendente que a Câmara do Porto não queira apoiar um movimento já existente, e, pelo contrário, o destrua, incluindo até bens doados por cidadãos. Toda esta demonstração de poder e de autoridade com que objectivo? Eventualmente fazer um projecto social.

A sociedade civil não é só um termo que fica bem nos programas de governo, nem é só retórica política. Este caso é um bom exemplo de política de costas voltadas para o cidadãos e para a dinâmica do que conseguem criar, com sacrifício pessoal.

2012-03-18

As Escolas e a Desigualdade


Em Portugal a maioria das pessoas concorda que o Estado deve fazer algo para mitigar a desigualdade, seguindo uma tradição europeia que, no pós-guerra, apesar dos muitos e importantes ajustes de realismo, continua a imperar. Ao contrário dos Estados Unidos, nunca na UE houve uma vontade ideológica predominante, mesmo das várias correntes maioritárias da direita, de sujeitar totalmente alguns sectores de serviço público, tais como saúde e educação, à mão invisível do mercado.

Foi decidido em 2008 que, de acordo até com as políticas da UE de combate à crise financeira, era necessário aumentar o gasto público para criar emprego e injectar recursos na economia. Isto coincidiu com algumas políticas do outro lado do Atlântico. No caso dos países europeus com menos recursos, isto levou a uma situação insustentável por factores internos e externos. Em Portugal houve na sua maioria mau investimento, não reprodutivo e socialmente pouco relevante.

Uma das excepções ao mau investimento foi a criação da Parque Escolar, para reabilitação em massa das escolas do pais. Na prática sofreu do mesmo mal histórico que muitos dos investimentos do estado português: o descontrolo orçamental, alguma opacidade e o favorecimento de empresas com mais peso junto do anterior governo; mas sofreu de um bem: o mérito do que se propunha atingir.

Em termos de oportunidades e confortos, se há sítio onde o estado pode e deve influir na mobilidade social e, por isso, no futuro do país, é na educação. O estado não pode levar as crianças das classes mais baixas às compras ao El Corte Inglês, nem lhes pode proporcionar uma casa confortável, nem as pode apresentar às pessoas certas para singrar na vida, nem as pode levar num avião a ver mundo, nem lhes pode educar e enriquecer miraculosamente os pais. Claro que não pode. Mas isto não quer dizer que não possa proporcionar um ponto de partida mais equitativo para todos.

Quando se visita um colégio privado, mesmo que não falemos em luxo, temos salas bem equipadas, temos recintos para vários desportos, comida saudável e actividades extra-curriculares. Por outro lado, temos em muitos casos uma matriz religiosa e conservadora e elites sociais a serem criadas em circuito fechado, com o conhecimento da realidade manchado pelo meio natural em que se movem.

A Parque Escolar produziu escolas arquitectonicamente interessantes, com conforto térmico (alguns gritam “aqui d’el Rei, o luxo!”) e condições acima da média. Produziu também erros, sem dúvida; que se corrijam, porque tudo o que se possa fazer para melhorar as escolas públicas, dentro dos possíveis, é meritório e pode aumentar a mobilidade social desde cedo. Quem não acredita, que consulte o conceito da mão invisível e o aplique aqui.

2012-02-15

Da geração na encruzilhada

(Publicado no scribd em 20-11-2012)


Lia há dias as queixas de uma jovem em relação à falta de oportunidades para quem tem um curso superior. É um argumento perfeitamente compreensível, e é triste que tal aconteça. Tem a ver com o que foi indirectamente prometido à minha geração, e veiculado na ideia da licenciatura. Uma promessa que veio de quem acreditava piamente nisso simplesmente porque era o paradigma dominante.

Claro que havia uma nuance que faz toda a diferença: eram poucos os que acediam à educação superior. Felizmente assistiu-se à sua democratização, e isso tem como consequência que um curso superior é cada vez menos um patamar e mais uma ferramenta. Para tornar as coisas mais difíceis, é uma ferramenta que pode ou não ser útil dependendo da conjuntura, do estado da ciência e tecnologia, e até da flutuação dos interesses dos seus possuidores.

Não devemos todavia confundir os “licenciados à rasca”, detentores de licenciaturas, pós-graduações ou mestrados, com o resto da “juventude silenciosa”, que tem poucas qualificações, ainda menos perspectivas e sem grandes hipóteses de aceder a um bom salário. Ou às vezes a qualquer salário.

A curto prazo, para os licenciados à rasca, a resolução passa por alargar as hipóteses de procura. Toda a integração europeia que aconteceu, desde o Erasmus à harmonização de Bolonha às companhias aéreas low cost, não foram meras curiosidades que “eles” fizeram na Europa. O alargamento das hipóteses de procura decorre destas oportunidades. E de certa maneira é bom, porque um curso superior que não tenha hipóteses em Portugal pode tê-las no estrangeiro.

O problema da tal juventude silenciosa é mais profundo, e a sua resolução é mais complexa. Emigração? Sim, mas esses não o fazem pela porta grande. Em Portugal o mercado de trabalho é pouco ágil, os salários baixos... Parece-me ser um dos grandes problemas do país, gerador de um círculo vicioso de mediocridade, tanto na vida dos envolvidos, como nas respostas dadas ao seu problema.

Do ponto de vista teórico, parece-me do mais saudável que há, em democracia, que quem seja privilegiado deixe de querer perpetuar o seu estatuto de forma artificial, e pelo menos aceite lutar por ele de forma justa, em oposição a remover-se confortavelmente da realidade social e viver apenas do que foi adquirido. Isto pode aplicar-se às empresas e às pessoas.

No caso dos bem conhecidos monopólios empresariais, a falta de concorrência inquina a procura pela eficácia no negócio, o que em última análise se reflecte na população. Em austeridade é ainda mais gritante que o Estado na prática subvencione accionistas de empresas, por meio de negócios ruinosos e parcerias nebulosas.

Haveria também vantagens numa maior proximidade entre as empresas e a sociedade, na medida do seu sucesso e grandeza. O exemplo de uma grande empresa de distribuição “querer talhantes e não os ter porque o Estado não os forma” é crasso. Como é que uma empresa que deveria ser um exemplo de empreendedorismo em toda a linha não abre ou patrocina essas escolas de formação? Porque não criam fundos de apoio ao ensino? Porque não fazem mais pelas artes?

E as pessoas? Como é que o enunciado anteriormente, sobre a perpetuação artificial de estatutos, se aplica às pessoas? Um exemplo sensível: a renovação do mercado de trabalho. A sua flexibilização é algo que deve acontecer, porque a solução para a precariedade não é simplesmente converter os recibos verdes em contratos a tempo indeterminado; por muito que custe, a solução para esta desigualdade é que alguma precariedade se incorpore nos contratos normais de trabalho. É polémico, sim, mas às vezes é preciso romper com o passado.

Tragédia Grega?

(Publicado no scribd em 29/09/2011)


Já há muito que a situação em que a Grécia está envolvida me faz confusão. Como é que um país com aqueles pergaminhos, com aquela grandeza clássica, está naquele estado?

Conhecer o legado dos clássicos gregos, mesmo que superficialmente como eu, é conhecer também o presente. É irónico que num momento em que a Grécia se desmorona, eu esteja a ouvir aulas de retórica da Univ. de Berkeley (no iTunes U), aulas essas que obviamente se socorrem de muitos conceitos, textos e exemplos gregos.

A cultura grega é o início da nossa cultura, especialmente se usarmos a palavra na sua acepção mais moderna. A desvantagem de "ninguém" conhecer o grego é não apenas tornar os clássicos mais distantes, mas também não conseguir sentir o pulso daquele país, e perceber como é que os Gregos vêem a sua própria situação.

Encontrei dois sites de jornais gregos, mainstream, que publicam em Inglês, o Athens News (http://www.athensnews.gr) e o ekathimerini (http://www.ekathimerini.com). Traduzi também um site em grego no Google Translate, o comunista e algo radical (http://www1.rizospastis.gr), que poderia ser uma versão grega do Avante não fosse o ligeiro pormenor de usar muito a palavra (lá estão os clássicos) plutocracia.

Eis o que retirei, sem nenhuma ordem especial:

  • Os direitos adquiridos são muito mencionados, especialmente os dos funcionários públicos. Tenta evitar-se a diabolização destes últimos, embora admitindo que muitos não tem grandes qualificações e que estão lá porque dantes saía-se da faculdade e ia-se para o Estado.
  • Há um projecto de lei do governo que permitiria um referendo em qualquer circunstância, dando como exemplos de uso uma moção de confiança ao Governo ou uma pergunta sobre a saída do Euro. Quem escreve o artigo de opinião diz "não precisamos de perguntas, precisamos de respostas"
  • Há uma sondagem de opinião num dos jornais mainstream em que a saída do Euro e regresso ao Dracma está a ganhar.
  • Foi passada uma lei que obriga ao pagamento de uma taxa/imposto sobre a propriedade; o vice primeiro ministro, que ajudou a passá-la, diz na TV que não sabe se tem dinheiro para a pagar e que talvez tenha que vender uma das 8 casas. À pergunta do jornalista "e se não puder mesmo pagar?" ele responde "não sei, o Ministro das Finanças que me mande prender"
  • Fala-se muito de outro haircut da dívida, depois dos 21% de Julho, e que pode chegar aos 50%.
  • Há um tal de Makis Psomiadis, executivo do futebol com um historial de 40 anos em acusações e condenações que vão do tráfico de ouro à fraude fiscal passando pela chantagem; está neste momento em tribunal por alegadamente ter um esquema de apostas ilegais em jogos de futebol que ele próprio influenciava/comprava. Entretanto saiu sob fiança de 600000 euros que supostamente não teria porque fiscalmente não se lhe conhece riqueza.
  • O governo introduz impostos e taxas em tudo o que pode, incluindo a já falada taxa sobre a propriedade e uma taxa sobre o gás natural, grande aposta energética há uns anos, o que fez com que muita gente tenha convertido os seus sistemas energéticos.
  • O Primeiro Ministro, socialista do PASOK, quer reformas, mas os ministros demonizam o memorando e sabotam-nas por uma questão de imagem política, não querendo arriscar danos para a sua futura carreira.
  • O partido da Nova Democracia, centro direita, que segundo me lembro muito ajudou na situação do endividamento do país, está à frente nas sondagens, dizendo que os gregos não aguentam mais impostos.
  • No tal jornal comunista, o discurso é muito parecido com o do nosso Avante. Uma frase: "As medidas do governo vão provocar a aniquilação das massas populares, para salvar os nossos credores, o capital acumulado da plutocracia, a Zona Euro e a competitividade". Interessante, a competitividade ser apresentada como algo mau.

Mais do que querer inferir paralelos, dolorosamente óbvios, com alguns aspectos da sociedade portuguesa, a minha principal conclusão é esta: reagem ao que "lhes está a acontecer" e não há um discurso claro do caminho que se quer que o país siga. Além disso há muito pouco de pensamento político e de filosofia.

Nem que seja para honrar o legado dos clássicos, esperava-se mais.